A atividade agrícola possui suas especificidades. Elas variam desde a sazonalidade da produção, o ciclo natural das culturas, as condições climáticas até a perecibilidade dos produtos. Outros pontos são: as demandas técnicas próprias de conservação, o planejamento e o entendimento do processo,  além da logística de distribuição da produção que exige investimento, muitas vezes com retorno sobre o capital investido a longo prazo tornando a atividade de maior risco quando comparada com outros setores. Desta forma, torna-se importante a utilização de técnicas de análise de investimentos para a tomada de decisão de investir em uma determinada área.

Todas estas características são desafiadoras para o produtor, empreendedor ou gestor agrícola, uma vez que devem estar atualizadas com as constantes mudanças e as tendências do macro ambiente (política agrícola, taxa de juros, câmbio entre outros), do ambiente imediato onde a atividade está inserida (fornecedores, compradores, produtos substitutos e concorrentes) e ainda preocupado com questões de dentro da porteira, desde fatores edafo-climáticos, relevo e localização, passando pelo ciclo das ações (agrícola e pecuária), pela produtividade, custos operacionais entre outros diversos fatores que influenciam substancialmente a performance de um determinado investimento. Assim, se torna importante para estes administradores uma análise mais profunda, fazendo uso de técnicas financeiras e de análise de investimentos e de riscos.

O principal objetivo de desenvolver uma análise de investimento é saber o quanto os objetivos determinados nas diretrizes estratégicas irão criar ou não valor para o empreendimento agrícola. Construir valor significa fazer com que os ativos tenham mais valor do que o capital investido no projeto, isto é, verificar se é viável economicamente. As técnicas podem ser aplicadas em diversas características de projetos, desde um novo investimento, como aumentar uma nova área agrícola e/ou pecuária até uma troca de equipamento ou investir em um maquinário mais moderno.

A análise de investimento deve fornecer elementos para auxiliar decisões, tais como:

-O que continuar produzindo?

-Deve-se diversificar ou crescer na própria atividade?

-Deve-se alterar o processo produtivo?

-Deve-se comprar um novo equipamento, continuar com o antigo ou terceirizar a execução da operação deste equipamento?

Para responder a estas questões é importante avaliar cada uma delas. Para isso, o produtor necessita utilizar ferramentas financeiras que proporcionem a melhor escolha e facilite o processo de tomada de decisão do gestor agrícola.

O fluxo de caixa, principal ferramenta para o desenvolvimento desta análise de investimentos, é composto por séries específicas de pagamentos e recebimentos de caixa estimados para um determinado período de tempo que geralmente representa a vida útil do projeto e que também pode ser o ciclo de uma cultura (ex.: culturas perenes) ou até mesmo vários ciclos (ex.: culturas anuais). Pode ser classificado de duas maneiras:

1 – Fluxo de caixa convencional: uma saída inicial de caixa seguida por uma série de entradas (exemplo: ciclo da cultura de café);

2- Fluxo de caixa não convencional: uma saída inicial de caixa seguida por uma série de entradas, mas de forma alternada e não uniforme, com várias entradas e/ou saídas (exemplo: vários ciclos da cultura de cana de açúcar em um único fluxo de caixa).

Existem ainda vários aspectos que devem ser considerados no processo de tomada de decisão da atividade e que podem causar impacto no futuro do empreendimento agrícola. Tanto as variáveis do macroambiente como do ambiente imediato que influenciam de maneira significativa o resultado de um empreendimento agrícola. Alguns destes fatores são determinantes no desempenho da ação e devem ser analisados com bastante critério e serem contemplados no fluxo de caixa para a análise de investimentos:

  • Área efetiva: área produtiva ou área cultivada;
  • Curva de produção: refere-se à produção a ser obtida durante o ciclo ou vários ciclos da cultura durante o período do projeto;
  • Produção total estimada: quantidade total esperada a ser produzida;
  • Produtividade: quantidade produzida por unidade de área, um dos melhores indicadores para medir o nível de eficiência e eficácia da propriedade;
  • Preço: é o preço unitário de expectativa de venda da produção;
  • Custo de formação: valor monetário gasto para a implementação da cultura (mudas, tratos culturais, adubação, irrigação);
  • Custo de produção: soma dos valores de todos os recursos e operações utilizados no processo produtivo de uma atividade agropecuária;
  • Custo não operacional: custo de todos os recursos utilizados pela propriedade não computados no custo operacional (despesas indiretas);
  • Custo com arrendamentos: valor pago pelo uso da terra de terceiros por um tempo determinado;
  • Custos com colheita e frete: valor monetário gasto com atividades de colheita e de transporte da produção;
  • Investimentos: aplicação de capital em meios de produção, visando o aumento da capacidade produtiva (instalações, máquinas, transporte, infraestrutura);
  • Receita com vendas: representa o resultado da atividade em valores monetários, multiplicação do preço unitário pela quantidade produzida;
  • Máquinas e equipamentos: valor monetário investido em máquinas e equipamentos;
  • Benfeitorias: valor monetário investido em benfeitorias;
  • Impostos e taxas: valores fixos pagos ao Estado para custear gastos públicos, no caso rural o mais comum é o Funrural ou Contribuição Social Rural, contribuição social destinada a custear a seguridade geral, este tributo é cobrado sobre o resultado bruto da comercialização rural (de 2,3% a 2,85%) e descontado, pelo adquirente da produção, no momento da venda.
  • Custo de Oportunidade: percentual ou valor que o capital empregado em uma atividade renderia se fosse utilizado em qualquer outra oportunidade;
  • Custo do capital próprio: é dado pela expectativa de retorno (percentual) sobre o investimento realizado no negócio durante um determinado período, baseado em níveis da taxa de uma aplicação financeira praticada pelo mercado.
  • Custo do capital de terceiros: é a taxa de retorno que os credores exigem para emprestar recursos financeiros à atividade em análise. Geralmente, o custo deste capital disponível para a atividade rural oferecido pelo governo é mais baixa do que uma taxa que se consegue aplicar no mercado financeiro no entanto, estes programas têm restrições ao volume de empréstimo a ser tomado;
  • Despesas administrativas: gastos necessários para administrar o empreendimento, tais como folha de pagamento, materiais de escritório, combustíveis, manutenção de veículos, entre outros.

Outro item que deve ser estudado é o Valor Presente Líquido (VPL) – técnica de análise de orçamento que desconta os fluxos de caixa da empresa a uma taxa especificada. Geralmente se utiliza a taxa praticada pelo mercado, referente ao retorno mínimo que deve ser obtido por um projeto. É o valor presente dos fluxos de caixa futuros, descontados a uma determinada taxa de juros, menos o valor presente do custo do investimento, sendo que as principais vantagens do uso do VPL é que esse indicador considera o custo do dinheiro no tempo, além de fornecer a ideia de riqueza absoluta.

Como critério de aceitar ou rejeitar o projeto, utiliza-se, quando o VPL for maior do que zero aceita-se, caso contrário, rejeita-se o projeto

Também deve ser levado em conta a Taxa Interna de Retorno (TIR) – definida como a taxa de desconto que iguala o valor presente das entradas de caixa ao investimento inicial de um projeto.  É a taxa que faz com que o VPL seja nulo. A TIR representa o que mais próximo existe do VPL, sem que se trate do próprio VPL.

A principal vantagem da utilização desta técnica de investimentos é que considera o custo do dinheiro no tempo, já a principal desvantagem é a limitação matemática quando o fluxo de caixa não é convencional (exemplo: fluxo de caixa de vários ciclos de cana-de-açúcar).

Como critério de aceitar ou rejeitar o projeto, utiliza-se a seguinte definição: quando a TIR for maior do que a taxa de desconto aceita-se o projeto, caso a TIR for menor que a taxa de desconto, rejeita-se o projeto.

E por fim, o Período de payback – tempo requerido para o retorno do capital investido em um projeto, a partir das entradas de caixa, ou seja, é o número de períodos necessários para recuperar o investimento original. Como os fluxos de caixa esperados no futuro distante são geralmente mais arriscados do que os fluxos de caixa de curto prazo, o payback é utilizado como um indicador de risco do projeto.

A simplicidade e a velocidade de cálculo são as principais vantagens de utilização desta técnica de análise de investimentos. No entanto, deve-se desconsiderar os fluxos de caixa após o período payback.

Como critério de aceitar ou rejeitar o projeto, utiliza-se o payback e quando for maior do que a expectativa de prazo gerada rejeita-se o projeto, caso contrário aceita-se o projeto.

Após o levantamento dos itens exemplificados e a sua análise, o empreendedor agrícola poderá iniciar a tomada de decisão de investir em uma determinada atividade.

Texto baseado no livroCaminhos da Fazenda Lucrativa – autores:  Frederico Fonseca Lopes (sócio da eAgro)  –  Marcos Fava Neves (sócio da eAgro) – Marco Antônio Tibério –  Janaína Gagliardi Bara

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