19/04/2018 – Neste artigo seguem os principais números e as reflexões tanto para o curto quanto para o longo prazo da cadeia agroindustrial da cana à partir dos fatos de março/abril. No último dia de março terminou nossa safra 2017/18. De acordo com a Unica foram processadas 596,313 milhões de toneladas, 1,78% de redução na comparação com 2016/17, mas acima da expectativa inicial de 585 milhões de toneladas. O teor de sacarose foi de 136,6 kg/t, número 2,68% maior que a safra anterior.

Esta melhor produtividade, mesmo com menos cana, elevou a quantidade de sacarose em 0,85%, para 81,457 milhões de toneladas, em comparação com a safra anterior e também acima do estimado de 78,624 milhões de toneladas no início da safra. Pelo CTC a produtividade caiu 1,02%, colhendo 75,99 toneladas por hectare. Esta cana com esta produtividade e ao mix de 46,46% levou o Centro-Sul a produzir 1,21% a mais de açúcar, um total de 36,059 milhões de toneladas. Foram também produzidos 15,672 bilhões de litros de etanol hidratado (4,49% a mais) e 10,420 bilhões de litros de anidro (2,19% a menos). A Unica destacou também a produção de 521,58 milhões de litros de etanol de milho.

Estamos esperando uma safra diferente, com 585 milhões e viés de baixa, mix de açúcar ao redor de 40%, e petróleo aos US$ 70 o barril.

O endividamento do setor deve voltar a aumentar nesta safra que iniciou em 1 de abril. Custos seguem crescendo, a produtividade não reage e temos perspectivas de preços piores para o açúcar, que em muitos casos estão abaixo do custo de produção. De acordo com o Itaú BBA foram três anos seguidos de redução e neste final de safra estava em R$ 113/tonelada de cana.

Em relação às reflexões dos fatos e números do açúcar, as exportações de açúcar e etanol em março caíram 17,4% quando comparadas com o ano anterior, e ficaram em US$ 636 milhões. Mais um mês ruim para os preços do açúcar, que bateu nos 12.10 centavos de dólar por libra-peso, com as boas expectativas de produção, um dos piores observados nos últimos 10 anos neste período.

Nova estimativa, desta vez da Associação de Usinas de Açúcar do Oeste da Índia (WISMA) coloca a produção na safra 2017/18 em um recorde de 30,3 milhões de toneladas. Somente o estado de Maharashtra deve passar de 4 para mais de 10 milhões de toneladas. O superávit deve passar de 5 milhões de toneladas.

As empresas europeias devem perder dinheiro com o açúcar neste ano, em virtude dos projetos de aumentos de produção e baixos preços, agora não protegidos e mais alinhados com o mercado internacional. A Sudzucker declarou que deve perder 200 milhões de Euros no pior cenário. Tem reduzido o apetite europeu pelo açúcar em virtude de diversas campanhas contrárias. Especialistas dizendo inclusive que o açúcar virou o “novo tabaco”.

Até 2022 deve cair em 20% o consumo de refrigerante e doces no Brasil quando comparado aos números de 2012. Para fazer frente à esta queda, muitas empresas mudam composições dos produtos, visando linhas com menos açúcar e gorduras e outras.

Açúcar vindo da cana transgênica do CTC foi aprovada pela agência Health Canada, podendo ser usado em seu território. Esta cana é resistente à broca.

Más notícias no açúcar neste mês, quase nada a comemorar. Os países que expandiram suas produções tomarão prejuízos homéricos, resta ver como estes serão cobertos, se pelo Governo via subsídio ou pelos agentes privados, mas estes trarão consequências no curto e médio prazos, com menos apetite de investimento e crescimento. Resta saber quem aguenta mais neste cenário trágico.

Em relação às reflexões dos fatos e números do etanol e energia, de acordo com o Cepea, os preços deflacionados do etanol na safra que se encerrou foram menores. O hidratado ficou em R$ 1,5929/litro (sem ICMS e PIS/Cofins), 3,6% abaixo de 16/17 e para o anidro o valor foi de R$ 1,7633/litro (sem PIS/Cofins), 4,1% abaixo.

O crescimento no consumo de combustíveis ciclo Otto nos últimos 12 meses foi de apenas 0,52%, provavelmente graças a alta dos preços e menor uso dos automóveis. Fatores que devem ajudar estão ligados ao ambiente externo: alta do petróleo e de proposta de mix de etanol nos EUA. Pela ANP, o consumo de Ciclo Otto (gasolina e/ou etanol) teve queda de 1,7% no primeiro bimestre (em gasolina equivalente). Porém, para o hidratado fevereiro foi bom, chegando a 1,243 bilhão de litros, de acordo com a Datagro. A participação do etanol em janeiro no mercado de combustíveis do ciclo Otto foi de 41%, contra a média de 38,2% em 2017, e de 39,4% em 2016.

Nesta safra, o hidratado caiu mais de 20% nas usinas em um mês e subiu nos postos, deixando de impactar como deveria no consumo da frota flex e atrapalhando toda a estratégia que apresentei na análise do mês passado. Na última quinzena em todos os estados o preço estava acima de 70% da gasolina.

Chegando perto de R$ 1,70 por litro, já temos o mais alto preço da gasolina desde a nova política de reajustes da Petrobrás. Mundialmente, esta já subiu 22% neste ano, acompanhando o petróleo mais caro e foi este o aumento também no Brasil. Talvez uma das únicas boas notícias ao setor de cana.

Segundo a Archer Consulting, um preço na usina de R$ 1,49/litro de hidratado equivale a açúcar a 14 centavos de dólar por libra-peso. Segundo a empresa a Petrobras ainda tem que elevar o litro da gasolina para alinhar com o mercado internacional, que no caso do barril Brent, chegou a patamares de US$ 71,50, refletindo não o aspecto econômico mundial, mas o político.

Em abril também são fortes as importações de etanol, estimadas em 220 milhões de litros, que devem ir ao Nordeste principalmente. Representa o dobro de abril de 2017. Segundo a Datagro, importamos 692,3 milhões de litros no primeiro trimestre de 2018. Com a entrada da safra no Centro Sul este volume deve cair significativamente. Porém, tem que ser considerada a retaliação chinesa ao etanol dos EUA, cujo superávit poderia ser dirigido ao mercado brasileiro, e uma vez que não temos excedentes para colocar no mercado chinês, perdendo uma eventual oportunidade a ser criada, esta notícia nos preocupa.

A China usando 10% de etanol na gasolina em 2020 terá seu consumo pulando de 4 bilhões para 20 bilhões de litros, vamos ver se sobra algo para nós.

Como última notícia de médio prazo, vale trazer a pesquisa do Sindicato Nacional da Indústria de Componentes (Sindipeças) que mostra que a crise envelheceu a frota brasileira. Hoje ela é de 9,7 anos, tendo ficado 1,2 anos mais velha do que o número de 2012. 52% da frota tem entre 6 a 15 anos (era 39% em 2012). Temos hoje 43,37 milhões de veículos, sendo que 73% destes está em SP, MG, RJ, RS e PR. Com a retomada da economia, tem-se grande potencial de crescimento, pois o Brasil tem hoje 4,8 habitantes por veículo. Olhando os números da Alemanha (1,68), França (1,72), Estados Unidos (1,2), Argentina (3,2) e México (3,5) é possível ver nosso potencial.

Finalizando… qual seria a minha estratégia com base nos fatos? Onde eu arriscaria agora em abril/maio: é a mesma coisa dita em março/abril… O preço do etanol precisa cair urgentemente nos postos para que o consumo na frota flex surpreenda e possa interferir nos preços do açúcar, pelo menos para o segundo semestre. Se repete neste ano o que acontece há dez anos, cai o preço na Usina e não cai na distribuição, de tal forma que um elo da cadeia (dois na verdade) transferem renda aos outros dois elos e não ocorre o esperado aumento de consumo. A mais importante ação ao setor seria a explosão do consumo de hidratadonestes próximos 3 meses.

*Leitura do Prof. Dr. Marcos Fava Neves sobre os Fatos da Cana em Abril de 2018.