Aposto na Safra Recorde de Soja

(reflexões do agro de março)

Prof. Dr. Marcos Fava Neves

No agro as notícias neste mês foram interessantes, segue um resumo dos fatos que mais me chamaram atenção. Mais uma estimativa da CONAB disponível e a safra vem vindo bem. Produziremos agora de grãos 226,04 milhões de toneladas (4,9% menor que a safra anterior). A área plantada é de 61,06 milhões de hectares, apenas 0,3% maior que a anterior. No milho estão as maiores perdas, cairemos de quase 98 para 87,28 milhões de toneladas (7,8% menor), com menor área e produtividade. Já na soja teríamos 113,02 milhões de toneladas, contra 114 milhões da safra anterior, e em 3,4% a mais de área, portanto com produtividade menor, mas a estimativa atual é bem maior que a de fevereiro, e arrisco dizer que podemos passar das 114 milhões. Algodão com 1,855 milhões de toneladas de pluma, sensível aumento, devido à maior área, o arroz com 11,28 milhões de toneladas.

O IBGE anunciou estimativa de safra de 227,2 milhões de toneladas, a segunda maior do Brasil, atrás apenas das 240 milhões da safra anterior. Aumentou 1,1 milhão de toneladas em relação à primeira estimativa. Vale ressaltar que desde a primeira projeção, o IBGE já aumentou em 7 milhões de toneladas. Estimativas bem próximas, a pergunta é porque nosso Brasil precisa de duas estimativas públicas? O ideal seria juntar estes craques e seus recursos sob um mesmo teto, mesma organização e expandir o volume, abrangência e a profundidade de dados.

Em relação aos preços dos principais produtos, a safra vem vindo bem, com preços sendo mantidos a níveis de razoáveis a bons, a soja ficou o mês acima de US$ 10/bushel, chegando a próximo de US$ 11 (parabéns a quem vendeu) e o milho com sensível alta no Brasil, chegando aos R$ 40/saca apesar do preço de Chicago ter se mantido. E com o dólar batendo a R$ 3,30 temos melhoria de rentabilidade. Também o índice mundial dos preços das commodities alimentares (índice da FAO) subiu 1,1% para 170,8 pontos. Cereais subiram um pouco (2,5%) e os lácteos (11,2%). Os açúcares caíram 3,4%, óleos vegetais cairam 3,1% e carnes permaneceu estático. Mas quando comparado a fevereiro do ano passado, os preços estão 2,7% menores em dólar, mas em trajetória ascendente.

As exportações no agro deste fevereiro foram de US$ 6,2 bilhões (5,2% acima de fevereiro de 2017) e retirando-se as importações de US$ 1,08 bilhões, ficou um superávit 6,6% maior, de US$ 5,1 bilhões. Trouxemos US$ 1,6 bilhões no complexo soja, com aumentos expressivos no óleo e no farelo. Na sequência vieram as carnes, com US$ 1,1 bilhão, puxados por crescimento de 22,7% na bovina, e queda de 12% no frango e 22% na suína, seguido pelos produtos florestais com US$ 1,08 bilhão. A China em fevereiro recuou suas compras em 5,3%, para US$ 1,3 bilhão (21,5% das nossas exportações). Balança comercial registrou superávit de US$ 4,9 bilhões em fevereiro e caminhamos para um saldo comercial de US$ 70 bilhões em 2018, excelente desempenho.

O PIB agropecuário em 2017 terminou crescendo 12,5% pela expansão da safra. A agropecuária representou 70% do crescimento de 1% registrado pelo Brasil. A ABAG (Associação Brasileira do Agronegócio) estima que o PIB da agropecuária deve crescer 0,5% em 2018.

Ainda nas comemorações referentes ao fechamento dos dados de 2017, tivemos anúncio de um bom resultado para a indústria de alimentos. De acordo com a Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (Abia), houve um ganho real de faturamento em 2017 de 1,01%, alcançando R$ 642,6 bilhões. Prevêem para 2018 um avanço real ainda maior, de 2,6 a 2,8%. Vale ressaltar quem mais cresceu em 2017: conservas vegetais (9,06%), a cadeia de produtos do trigo (8,22%), óleos e gorduras vegetais (3,67%) e chocolate, cacau e balas (3,60%). Sucos tiveram queda real de 1,28%. O varejo alimentar cresceu 4,6% ano passado e o setor de restaurantes cresceu 6,2%. Recuperação acontecendo e resultados melhores esperados para este ano.

Outro bom indicador de 2017 veio das padarias, que tiveram volume de transações crescendo após 4 anos de queda. Faturaram R$ 90,3 bilhões em 2017, crescendo nominalmente 3,2% sobre o ano anterior, com ganho real de quase 1,3%, segundo informações da Associação Brasileira da Indústria da Panificação e Confeitaria (Abip). Esperam um 2018 melhor ainda. A pesquisa mostra que a produção própria cresceu 5,4%, atingindo R$ 57,8 bilhões e a revenda de produtos cresceu apenas 0,7%, somando R$ 32,5 bilhões.

Na arena internacional, o fato negativo ao agro brasileiro vem sendo na Rússia, a política do Presidente Putin de autossuficiência em alguns produtos alimentares. Conseguiram no açúcar, em alguns grãos e agora tem dado foco relevante nas carnes, onde são grandes compradores do Brasil. A Rússia pretende também dobrar as exportações agrícolas, atingindo US$ 40 bilhões até 2025. Os Russos deixaram de comprar soja dos EUA, graças a um embargo e passaram a comprar mais do Brasil, de onde vem 60% das suas importações, bem como nas carnes, que tinham esta participação até o embargo no final do ano passado, por acusação de uso de hormônio. Mas a perspectiva no médio prazo é a redução da importância deste que é relevante comprador brasileiro.

Já um fato que pode vir a ser positivo é advindo de possíveis retaliações que países prejudicados pelas novas tarifas de importação de aço e a alumínio colocadas pelos EUA podem fazer contra produtos americanos, abrindo espaços para os produtos brasileiros, uma vez que os EUA são concorrentes do Brasil nestas exportações do agro. A União Europeia colocou o suco de laranja americano na lista dos possíveis alvos e a China ameaça a soja. Vamos observar, pois outros países podem ter comportamentos similares, forçando os EUA a voltarem atrás ou nos beneficiando.

Na notícia empresarial, o destaque vi na Starbucks (lojas de café), passando seus 113 pontos de venda no Brasil para a empresa SouthRock, que executará um plano de expansão e pagará taxa licenciamento à empresa. Estima-se que estas lojas vendam ao redor de R$ 250 milhões por ano (Valor). O contrato é de 20 anos. No mundo são 28 mil lojas, sendo 13 mil sob licenciamento. Faturou em 2017 US$ 22,4 bilhões. Trago este exemplo para dizer que somente uma empresa vende 25% do total das exportações do agro brasileiro, mostrando como podemos crescer se avançarmos para maior agregação de valor nas cadeias produtivas.

Finalizando o mês, são boas as notícias no crescimento e na confiança. No lado político continua uma confusão com a proliferação de anúncios de candidaturas, mas na minha leitura com um viés crescente nos eleitores para uma mentalidade mais liberal no Brasil. Mais empresas e menos Estado. No agro permanecem os riscos de atrasos na colheita da soja devido às chuvas e retardamento do plantio da safra de milho. Estimulo para plantar, com os novos preços, não falta, restando torcer para o clima deixar.

Termino este artigo com duas frases do Sr. Lula da Silva, estampadas na Folha de São Paulo (20/03): “fazendeiros têm dois prazeres: quando recebem dinheiro e quando dão calote no Governo” e “se tratassem os empregados como tratam os cavalos, estes estariam muito bem de vida”.  Demonstra o pouco aprendizado que conseguiu adquirir em décadas da vida pública, generalizando e fazendo um ataque infeliz a quem tem sustentado, e sustentavelmente, o Brasil. Resta torcer para que a justiça, ainda neste mês, nos livre desta convivência.

Marcos Fava Neves é Professor Titular da Faculdade de Administração da USP, Campus de Ribeirão Preto. Especialista em planejamento estratégico do agronegócio (favaneves@gmail.com).