Análise Do Mercado Da Cana Em Junho | O Etanol Hidratado Segue Com Positividade

Análises
Marcos Fava Neves 12/07/2019 14:15

Resumo de Junho

Segundo a ÚNICA, nas duas primeiras semanas do mês tivemos 35,84% da cana que foi moída indo para a produção de açúcar, enquanto 64,16% foi para o etanol. Processamos um total de 170,8 milhões de toneladas, valor 4% abaixo dos 178 milhões da última safra. Esta queda no processamento representa uma produção 10,4% menor de açúcar (7,7 contra 7,5 milhões de toneladas), 3% menor de anidro (2,5 bilhões de litros) e 6% menor de hidratado (5,8 bilhões de litros). O Açúcar Total Recuperável (ATR) por tonelada caiu 4% e o mix (66%) está quase 1% maior para o etanol em relação à última safra. A queda na qualidade e na produtividade resulta nestes preocupantes rendimentos abaixo do esperado.


 Sobre as empresas

Quando analisamos as empresas, podemos destacar três delas: Vale do Paraná, São Martinho e Copersucar.

Vale do Paraná

A empresa já apresentou à consultoria SGS os dados que atendem aos critérios de elegibilidade para a emissão dos CBios.

São Martinho

Ela tem a expectativa de moer 22 milhões de toneladas na safra atual (2019/20), um valor 8% maior que o do ano passado, devido ao melhor clima e o aumento na sua produtividade. Seu ATR esperado é de 139 kg/t, um valor 2% menor. Na safra 2018/19, a São Martinho obteve um lucro líquido de R$ 461,4 milhões.

Copersucar

A empresa espera que a demanda americana de etanol possa atingir um aumento de até 50% com a mudança que permite a adição de 15% de etanol à gasolina. Em 2018/19 (abril a março) a empresa teve resultados positivos, com um lucro líquido de R$ 178 milhões. Ela reflete o que foi a safra de cana brasileira – seu mix de comercialização foi de quase 68% de etanol. Enquanto isso, foram 3,8 milhões de toneladas de açúcar e 4,8 bilhões de litros de etanol, sendo que destes 700 milhões de litros foram exportados.

Visão Geral do Açúcar

A nova projeção da Organização Internacional do Açúcar (OIA) coloca o superávit global na safra de 2018/19 (atual) em 1,8 milhão de toneladas, enquanto para a safra 2019/20 o esperado é um déficit de 3 milhões de toneladas. Ao final desta safra, teremos um estoque 2% maior, com quase 95 milhões de toneladas. A produção na safra 2018/19 atingirá 178,75 milhões de toneladas. Entretanto o consumo será de 176,9 milhões de toneladas. Segundo a estimativa do USDA, a produção global de açúcar deverá atingir 180,7 milhões de toneladas em 2019/20.

Índia

Para a Índia, a nova estimativa é de 28,2 milhões de toneladas de açúcar em 2019/20 – estes valores representam uma queda de quase 15% em relação ao período atual (2018/19). Segundo a Associação Indiana de Usinas de Açúcar, os estoques elevados irão permitir que o país continue exportando em 2020. Este aspecto fez com que a quebra não influenciasse os preços.

Exportações

No mês de junho, as exportações foram de 1,538 milhã de toneladas. Em relação a junho de 2018, este valor é 20% menor, e em relação a maio deste ano, o valor é 12,1% menor. O valor das exportações foi de US$ 447 milhões, 17,2% menor que em maio, que havia atingido US$ 540 milhões, e 22% menor que junho de 2018, cujo valor foi de US$ 573 milhões. Em 2019 nós vendemos 7,969 milhões de toneladas, 18% a menos que o mesmo período do ano passado. Estas vendas tiveram um valor de US$ 2,346 bilhões, valor 27% menor que em 2018. Sem grandes novidades nos preços, que se manteve entre 12 e 13 cents/libra peso e cerca de R$ 63 a saca no mercado interno.

União Europeia e Mercosul

Para a ÚNICA, os resultados em médio prazo do acordo entre a União Europeia e o Mercosul seria o aumento nas exportações que, então, atingirão o valor de US$ 2 bilhões.

Visão Geral do Etanol

Quando olhamos para o cenário do etanol podemos ver as boas notícias do consumo, mesmo com a economia brasileira sem grandes acelerações. Para a ANP, as vendas do hidratado em maio atingiram 1,87 bilhões de litros – venda 42% maior que em relação ao ano anterior. Quando analisamos os cinco primeiros meses do ano, temos a comercialização de 9,03 bilhões de litros – 37% a mais que em 2018. Podemos atingir um valor de vendas entre 25 e 28 bilhões de litros em 2019. Segundo a ÚNICA, nas duas primeiras semanas de junho foram vendidas pelas unidades produtoras da região Centro-Sul um total de 1,3 bilhão de litros, sendo destes 354,76 milhões de anidro. Já do hidratado, a venda foi de 902,03 milhões de litros.

Futuro do Etanol

O presidente da ÚNICA coloca que é possível que, até a safra de 2028, nós possamos produzir entre 47 e 50 bilhões de litros de etanol/safra. Atualmente o valor de nossa produção por safra é de 33 bilhões de litros. O crescimento será devido ao RenovaBio e tudo que cerca estes investimentos em ampliação de unidades. Haverá a possibilidade de emissão de debêntures de R$ 62,3 bilhões por ano. Segundo as estimativas do Governo, o RenovaBio deve oferecer R$ 13 bilhões por ano na economia, sendo que destes, R$ 9 bilhões serão aplicados na renovação de canaviais.

O Mercado

No dia 4 de junho, o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou um período de 180 dias para a análise das mudanças de tributação para a liberalização do mercado (venda direta aos postos) de etanol que deve ser feita pelo Ministério da Economia. Neste caso, um dos agentes da cadeia seria o responsável por recolher todos os impostos. Além da necessidade da aprovação do Governo e da questão tributária, é também preciso ver o funcionamento dos controles de qualidade, a efetividade do pagamento dos impostos e os créditos do RenovaBio. Segundo a SCA, os preços do hidratado em junho ficaram em torno de R$ 2,00/L – já com a inclusão dos impostos – nas usinas e o anidro perto de R$ 1,95/L. Percebemos um ponto importante aqui – passamos pela safra sem quedas significativas.

Petróleo e o Etanol

O petróleo também teve seu preço reduzindo, com uma queda de mais de 10% em um mês, porém com recuperação do valor ao final de junho. Seus preços impactam para o setor da cana e, por isso, a recuperação foi um alívio. Nos Estados Unidos, estuda-se a eliminação do benefício de pequenas refinarias (que produzem até 75 mil barris por dia) para que elas não adicionem etanol na mistura de gasolina, caso o mesmo cause dano econômico. No mês de maio, as vendas de E15 foram liberadas durante todo o ano, não estando mais restritas ao verão. Entretanto, esta medida não teve muitos efeitos. Em uma análise geral, quanto mais etanol consumido nos Estados Unidos, melhor para o agronegócio brasileiro.

Biocombustíveis

Para a Agência Internacional de Energia (AIE), os biocombustíveis devem ter uma participação no setor mundial de transportes de 19% até 2023. Os maiores potenciais de crescimento estão na Índia e na China, cuja meta pode chegar em até 10% em2020. Nestes países, o consumo de combustíveis cresce mais de 5% ao ano.

O que observar em Julho

Devemos continuar na torcida para que os preços do petróleo permaneçam em um patamar que viabilize o grande aumento de vendas do hidratado com margem para as usinas para salvarmos o valor do ATR. Entretanto, pensando na qualidade e produtividade da cana até o momento, é muito possível que tenhamos frustrações na produção total de açúcar e etanol. Isso sem nos esquecer de perceber quais serão os impactos finais das geadas nos canaviais. Marcos Fava Neves – Sócio eAgro | Professor FGV/USP



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Marcos Fava Neves
Sócio eAgro | Professor USP e FGV

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