Chegamos ao oitavo mês do ano e, mais uma vez, trazemos as análises do nosso sócio, o professor Marcos Fava Neves, sobre o agronegócio. Veja abaixo!

Analisando os estudos mundiais mais relevantes, podemos destacar o novo relatório da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e da FAO, a agência da ONU que trabalha a agricultura e a alimentação.

Relatório OCDE + FAO

Este estudo traz que a América Latina e o Caribe deverão ter um aumento de 23 para 25% das exportações mundiais dos agronegócios até 2028. Ao dividir as exportações pelas principais commodities, em 10 anos teremos resultados como o crescimento de:

  • 7% no açúcar;
  • 24% no arroz;
  • 23% no trigo;
  • 40,5% nas oleaginosas;
  • 57% na carne bovina;
  • 33% nas carnes suínas;
  • 27% nos frangos.

Impactos destes crescimento

Com este crescimento nas exportações, este grupo de países deverá atingir um aumento de 22% na produção de cereais. Esta mudança irá impactar a média mundial de crescimento que estava prevista em 15%. A previsão é que a produção mundial atinja 3,053 bilhões de toneladas.

Enquanto isso, as carnes terão um aumento de 16% na nossa região, um aumento 3% maior em relação ao previsto – valor acima da média mundial.

Há também o fortalecimento da hipótese de que o abastecimento das crescentes importações asiáticas e africanas será feito pela nossa produção. Este resultado se mantém mesmo com a taxa de crescimento do consumo mundial de grãos caindo de 2,1% a.a. para 1,2% a.a..

Entretanto, temos também a previsão de que os preços em dólar tenham uma queda de cerca de 1,2% ao ano em relação ao real. Isso significa que temos mercado, mas será necessária maior eficiência para garantir o lucro.

Como fica o milho?

A expectativa é que em 2028 a produção de milho tenha aumento 183 milhões de toneladas, distribuídas entre:

  • China – 47 m.t.
  • EUA – 31 m.t.
  • Brasil – 25 m.t.
  • Argentina – 17 m.t.
  • Ucrânia – 6 m.t.

Enquanto isso, o consumo total atingiria um crescimento de 190 milhões de toneladas.

Analisando a última década (2008 – 2018), percebemos que o consumo cresceu 265 m.t..

As importações de milho deverão crescer 33 milhões de toneladas, atingindo 193 m.t. em 2028, vindas principalmente do:

  • México;
  • União Europeia;
  • Japão;
  • Coréia do Sul.

Já as exportações deverão concentrar 95% do total nos países:

  • Estados Unidos;
  • Brasil;
  • Argentina;
  • Ucrânia;
  • Rússia.

E a Soja?

Ainda pelas análises do mesmo relatório, nessa próxima década, o crescimento da produção da soja brasileira deve superar 1,8% por ano, ao passo que nos Estados Unidos, o crescimento deva ser de 1,2% ao ano.

Esta projeção significa que podemos chegar a produzir 144 milhões de toneladas de soja em 2028.

Em 2028, a China deverá importar aproximadamente 113 milhões de toneladas da cultura, quase 65% do total.

A exportação do produto terá 90% de sua origem nos países:

  • Brasil
  • Estados Unidos
  • Argentina

Apenas o Brasil deverá atingir mais de 42% das exportações.

Estudos Banco UBS

O estudo Food Revolution do Banco UBS mapeia oportunidades de US$ 700 bi no mercado agro com as novidades nas áreas tecnológicas e na sua digitalização.

O aumento no uso de tecnologias trará um mercado estimado de US$ 90 bilhões em 2030, enquanto as carnes de laboratório/proteínas vegetais deverão passar para US$ 85 bilhões. Atualmente o valor é de US$ 4,6 bilhões

Além disso, o sistema de delivery também deverá atingir um grande crescimento – podendo chegar em 500% em 12 anos.

Brasil e União Europeia

Ainda trazendo detalhes sobre o acordo do Brasil com a EU, pela análise realizada pelo MAPA, em regime total, 82% dos produtos agros do país terão acesso livre ao mercado europeu. Enquanto isso, 18% dos produtos passarão por cotas.

As tarifas de diferentes frutas como melancia, maçã, limão, lima, abacate e uva, que antes circundavam os 10%, chegarão a 0 dentro de 10 anos.

Para o café processado, em 04 anos a tarifa atual de 9% cairá a 0, e para o fumo também será zerada dentro de 4 a 7 anos – a depender do estágio de processamento.

O mercado de peixes e pescados deverão ter suas tarifas em queda de 07 a 10 anos.

Estes produtos fazem parte da parcela que não terão restrições de cotas.

Produtos com cotas

Da parcela restrita às cotas, destacamos a carne bovina, com cota de 99 mil toneladas peso carcaça com uma tarifa de 7,5%, porém a tarifa de 20% da Cota Hilton (10 mil toneladas) cai para zero com o início da vigência do acordo.

Para as aves, a cota será de 180 mil toneladas com tarifa zero. A carne suína terá uma tarifa de 83 euros por tonelada para 25 mil toneladas.

Os ovos não terão tarifas, porém cotas de 3 mil toneladas.

O açúcar terá a cota de 180 mil toneladas sem tarifas, o arroz 60 mil toneladas e o milho 1 milhão de toneladas.

Ainda há a possibilidade do aumento destes valores a partir do quinto ano de vigência do acordo.

Para os biocombustíveis, o etanol terá uma cota de 450 mil toneladas com tarifa zero.

O mercado também se abre para a cachaça, que terá queda na taxa de 9 para 0 em 04 anos. Além disso, o suco de laranja também terá as tarifas zeradas em 10 anos.

Ministério da Agricultura

No cenário base, seguindo a tradicional estimativa de 10 anos do Ministério da Agricultura, teremos que plantar mais 10,3 milhões de hectares.

Essa mudança nos levaria a um total de 85,68 milhões de hectares, considerando todas as lavouras. Nos grãos, especificamente, sairemos de 62,9 milhões para 72,4 milhões.

Tal aumento na área de produção e o aumento da produtividade fará com que possamos passar de 236,7 milhões de toneladas produzidas para 300 milhões.

Produtividade das Safras

Agora é necessário acompanhar o desempenho da grande safra americana, pois as áreas do corn belt americano enfrentam fortes temperaturas e um período seco, causando incertezas sobre a sua produtividade para esta safra.

Ao final de julho, as taxas de lavouras de milho que foram classificadas como boas ou excelentes era de 58%, na safra anterior, o valor era de 72%.

Na soja, esta taxa é de 54% – sendo que na anterior, era de 70%.

Ainda não há certeza sobre a área total plantada, e qualquer problema climático que possa surgir terá um grande impacto. Em Julho os preços dos grãos se mantiveram estáveis, fazendo com que agosto possa então ser um mês com maiores variações.

A China no atual cenário

Com a peste em seu território, no mês de junho a China importou mais de 160 mil toneladas de suínos. Este valor é 63% maior que o importado no mesmo mês no ano passado.

Analisando as importações chinesas em todo o ano, já temos um valor26% maior – ultrapassando 800 mil toneladas. Para os consumidores, os preços tiveram um aumento de mais de 20%.

Enquanto isso, as importações da carne bovina também têm crescido, chegando em 150 mil toneladas por mês. O país com destaque para as exportações é a Austrália, cujo aumento em relação ao ano passado foi de 55%.

A inflação dos alimentos na China pode significar boas notícias para o agro brasileiro.

O esperado gesto de “goodwill” (boa vontade) por parte dos chineses em retomar as importações americanas não aconteceu e ficamos no aguardo para agosto.

Conclusão

Foi oficialmente anunciado pelo Ministro Paulo Guedes o início dos trabalhos para um acordo comercial entre EUA e Brasil. Mesmo em produtos agro, os Estados Unidos importaram US$ 130 bilhões no ano passado – e suas importações aumentaram, em 10 anos, um total de US$ 50 bilhões.

Enquanto isso, o Brasil exportou um total de US$ 100 bilhões, mostrando que apenas os EUA importam mais do que exportamos para todo o mundo.

Os cinco fatos do agro para acompanhar agora diariamente em agosto são:

  • O mais importante: o andamento do clima na safra dos EUA e as estimativas de produção;
  • A estimativas de importações de carnes vindas da China com os impactos da evolução da peste suína africana. Grande incerteza.
  • As questões comerciais de China e EUA e se haverá mesmo gesto de boa vontade para aumentar a importação de alimentos dos EUA pela China visando acelerar as negociações, sendo este um risco ao Brasil;
  • A retomada dos trabalhos no Congresso e Senado e o andamento das reformas da previdência e outras;
  • Evoluções do acordo comercial Mercosul e União Europeia.

Marcos Fava Neves 
Sócio eAgro e Professor da USP e FGV

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